Tradução de Eduardo Galeno
A vida dos povos civilizados da América pré-colombiana não é apenas prodigiosa para nós pelo fato de sua descoberta e seu desaparecimento repentino, mas também porque, sem dúvida, nunca a insanidade humana concebeu uma excentricidade mais sanguinária: crimes cometidos em plena luz do dia pela mera satisfação de pesadelos deificados, fantasias aterrorizantes! Refeições canibais dos sacerdotes, cerimônias com cadáveres e rios de sangue, mais do que uma aventura histórica, evocam aqueles excessos deslumbrantes descritos pelo ilustre marquês de Sade.
É verdade que esta observação diz respeito sobretudo ao México. O Peru representa talvez uma miragem singular, uma incandescência de ouro solar, um brilho, uma riqueza perturbadora: a realidade não corresponde a esta sugestão. A capital do império inca, Cuzco, estava situada em um planalto elevado, ao pé de uma espécie de acrópole fortificada. A cidade tinha um caráter de grandeza pesada e maciça. Casas altas construídas com enormes blocos de pedra, sem janelas externas, sem ornamentos e cobertas com palha, davam às ruas um aspecto meio sórdido e triste. Os templos que dominavam os telhados tinham uma arquitetura igualmente austera: apenas o frontão era totalmente revestido por uma placa de ouro repujado. A este ouro, é preciso acrescentar os tecidos de cores brilhantes com que se cobriam as pessoas ricas e elegantes, mas nada era suficiente para dissipar a impressão de selvageria medíocre e, acima de tudo, de uniformidade entorpecente.
Cuzco era, de fato, a sede de um dos Estados mais administrativos e regulares que os homens já formaram. Após importantes conquistas militares, devidas à organização meticulosa de um gigantesco exército, o poder inca se estendia por uma região considerável da América do Sul (Equador, Peru, Bolívia, norte da Argentina e Chile). Neste domínio aberto por estradas, um povo inteiro obedecia às ordens dos funcionários como se obedecesse aos oficiais nos quartéis. O trabalho era distribuído, os casamentos decididos pelos funcionários. A terra e as colheitas pertenciam ao Estado. As celebrações eram festas religiosas do Estado. Tudo estava previsto em uma existência sem ar. Esta organização não deve ser confundida com a do comunismo atual: ela diferia essencialmente deste, pois se baseava na herança e na hierarquia das classes.
Nestas condições, não é surpreendente que haja relativamente poucos traços brilhantes a relatar sobre a civilização inca. Mesmo os horrores são pouco impactantes em Cuzco. Com a ajuda de laços, as raras vítimas eram estranguladas nos templos, como o do Sol, por exemplo, cuja estátua de ouro maciço, fundida desde a conquista, conserva, apesar de tudo, um prestígio mágico. As artes, embora muito brilhantes, não apresentam, no entanto, mais do que um interesse secundário: os tecidos, os vasos em forma de cabeças humanas ou de animais são notáveis. Mas nesta região é preciso procurar noutro lugar, e não entre os incas, uma produção verdadeiramente digna de interesse. Em Tihuanaco, no norte da Bolívia, a famosa porta do Sol já dá testemunho de uma arquitetura e de uma arte prestigiosas que devem ser atribuídas a uma época muito anterior. Entre as cerâmicas, vários fragmentos se unem em estilo a esta porta milenar. Em suma, na época dos incas, são os povos da costa, de civilização mais antiga, os autores dos objetos mais curiosos.
A Colômbia, o Equador, o Panamá e as Antilhas também apresentavam, na época da conquista, civilizações muito desenvolvidas cuja arte nos surpreende hoje. É preciso atribuir aos povos destas regiões uma parte das fantásticas estatuetas, com rostos oníricos que colocam a arte pré-colombiana no centro das preocupações atuais. No entanto, é necessário denotar imediatamente que nada na América desaparecida pode, em nossa opinião, se igualar ao México, região na qual se distingue, por outro lado, duas civilizações muito diferentes, a maia quiché e a dos mexicanos propriamente ditos. A civilização maia quiché é geralmente considerada a mais brilhante e interessante de todas as da América desaparecida. De fato, suas produções são provavelmente as que mais se aproximam daquelas que os arqueólogos costumam apontar como notáveis.
Ela se desenvolveu numa época anterior, alguns séculos antes da conquista espanhola, na região oriental da América Central, no sul do atual México, mais precisamente na península de Yucatán. Estava em plena decadência quando os espanhóis chegaram.
A arte maia é certamente mais humana do que qualquer outra na América. Embora não tenha havido influência, é difícil não compará-la às artes contemporâneas do Extremo Oriente, à arte khmer, por exemplo, da qual tem o caráter de vegetação pesada e exuberante: ambas se desenvolveram sob um céu de chumbo em países excessivamente quentes e insalubres. Os baixos-relevos maias representam os deuses com forma humana, mas pesada e monstruosa, muito estilizada, sobretudo muito uniforme. Podem ser considerados extremamente decorativos. Na verdade, fazem parte de conjuntos arquitetônicos muito prestigiados, que foram os primeiros a permitir que as civilizações da América rivalizassem com as grandes civilizações clássicas. Em Chichén Itzá, em Uxmal, em Palenque, ainda se descobrem as ruínas de templos e palácios imponentes, às vezes ricamente trabalhados. Além disto, são conhecidos os mitos religiosos e a organização social destes povos. O seu desenvolvimento teve certamente uma grande influência e determinou em grande parte a civilização do Altiplano, mas a sua arte não deixa de ter algo de natimorto, simplesmente repugnante, apesar da perfeição e riqueza do trabalho.
Se você procura ar e violência, poesia e humor, só os encontrará nas cidades do centro do México, que alcançaram um alto grau de civilização pouco antes da conquista, ou seja, ao longo do século XV.
Sem dúvida, os mexicanos que Cortés encontrou não passavam de bárbaros recém-culturados. Tendo chegado do norte, onde levavam a vida errante dos índios, eles nem mesmo assimilaram de maneira brilhante o que aprenderam com seus antecessores. Assim, seu sistema de escrita, análogo ao dos maias, é, no entanto, inferior. Não importa: entre os diversos índios da América, o povo asteca, cuja poderosa confederação se apoderou de quase todo o México atual durante o século XV, continua sendo o mais vivo, o mais sedutor; até mesmo por sua violência insana.
Em geral, os historiadores que se ocuparam do México foram, até certo ponto, vítimas da incompreensão. Se levarmos em conta, por exemplo, a maneira literalmente extravagante de representar os deuses, as explicações são desconcertantes pela sua fraqueza.
“Quando se olha para um manuscrito mexicano”, diz Prescott, “fico impressionado ao ver as caricaturas mais grotescas do corpo humano, cabeças monstruosas e enormes sobre corpos pequenos, doentes e deformes, cujos contornos são rígidos e angulares, mas, se olharmos mais de perto, fica claro que se trata menos de uma tentativa desajeitada de representar a natureza e mais de um símbolo convencional para expressar a ideia da maneira mais clara e impactante. É assim que as peças de mesmo valor em um jogo de xadrez correspondem entre si pela forma, mas oferecem muito pouca semelhança com os objetos que supostamente representam”.
Esta interpretação das deformações horríveis ou grotescas que perturbaram Prescott parece hoje insuficiente. No entanto, se remontarmos à época da conquista espanhola, encontramos sobre este ponto uma explicação verdadeiramente digna de interesse. O monge Torquemada atribui os horrores da arte mexicana ao demônio que obcecava o espírito dos índios: “As figuras de seus deuses, diz ele, eram semelhantes às de suas almas pelo pecado em que viviam sem fim”.
É evidente que há uma aproximação entre a maneira como os cristãos representam os demônios e os mexicanos representam os seus deuses.
Os mexicanos eram provavelmente tão religiosos quanto os espanhóis, mas misturavam à religião um sentimento de horror, de terror, aliado a um tipo de humor negro mais assustador do que o normal. A maioria de seus deuses são ferozes ou estranhamente malfeitores. Tezcatlipoca parece obter um prazer inexplicável de certas “trapaças”. Suas aventuras, contadas pelo cronista espanhol Sahagún, formam uma curiosa contrapartida da Legenda áurea. Ao mel cristão se opõe o aloe asteca, à cura dos doentes piadas sinistras. Tezcatlipoca passeia no meio da multidão brincando e dançando com um tambor: a multidão dança em grupo e corre absurdamente em direção aos abismos, onde os corpos se despedaçam e se transformam em rochas. Sahagún conta assim outra “maldade” do deus necromante: “Choveu uma chuva de pedras e, em seguida, uma grande rocha chamada techcalt. A partir deste momento, uma índia viajava em um lugar chamado Chapultepec, oferecendo à venda pequenas bandeiras de papel, gritando: ‘Há bandeirinhas!’. Quem decidisse morrer dizia: ‘Compre uma bandeirinha para mim’, e quando a comprava chegava ao local do techcalt, onde era morto sem que ninguém pensasse em perguntar: ‘O que está acontecendo conosco?’. E todos estavam como enlouquecidos”.
Aparenta muito evidente que os mexicanos obtinham um prazer obscuro neste tipo de mistificação. É até provável que estas catástrofes de pesadelo os fizessem rir de certa forma. Assim, passamos a compreender diretamente alucinações tão delirantes quanto os deuses dos manuscritos. Coco ou chamuco são palavras associadas a estes personagens violentos, piadas sinistras e cheias de humor malicioso, assim como o deus Quetzalcóatl, que desliza das alturas das montanhas sentado em uma prancha…
Os demônios esculpidos nas igrejas da Europa seriam completamente comparáveis a eles (sem dúvida participavam da mesma obsessão essencial) se também tivessem o caráter de poder, a grandeza dos fantasmas astecas, os mais sanguinários de todos os que povoaram as nuvens terrestres.
Sanguinários ao pé da letra, como todos sabem. Não há um único deles que não tenha se salpicado de sangue periodicamente para comemoração. Os números citados variam: no entanto, é possível admitir que o número de vítimas anuais chegava a pelo menos vários milhares apenas na cidade do México. O sacerdote mantinha um homem com o abdômen exposto, as costas arqueadas sobre uma espécie de grande marco, e abria seu tronco golpeando violentamente com uma faca de pedra brilhante. Com os ossos assim cortados, o coração era retirado com as mãos nuas da abertura inundada de sangue e arrancado violentamente com tal habilidade e rapidez que esta massa sangrenta continuava pulsando organicamente por alguns segundos sobre as brasas vermelhas: em seguida, o cadáver repugnante rolava pesadamente até o fundo de uma escadaria. Finalmente, ao cair da noite, todos os cadáveres eram esfolados, esquartejados e cozidos e os sacerdotes vinham comê-los.
Estes não se contentavam, aliás, em se banhar em sangue, nem em inundar com ele as paredes do templo, os ídolos, as flores brilhantes que enchiam o altar: em certos sacrifícios que envolviam o esfolamento imediato do homem ferido, o sacerdote exaltado cobria o rosto com a pele sangrenta do rosto e o corpo com a do corpo. Assim revestido com este traje incrível, ele implorava, delirante, ao seu deus.
Mas aqui é o lugar para enfatizar com insistência o caráter surpreendentemente feliz destes horrores. O México não era apenas o mais repleto de vestígios humanos, era também uma cidade rica, uma verdadeira Veneza com canais e passarelas, templos decorados e, acima de tudo, belos jardins floridos. Até mesmo sobre as águas havia cultivo da flora com paixão. Com elas adornavam os altares. Antes dos sacrifícios, as vítimas eram obrigadas a dançar “usando colares e guirlandas de flores. Elas também tinham rodelas floridas e juncos perfumados que fumegavam e cheiravam alternadamente”.
É fácil imaginar os enxames de moscas que deviam rodopiar na sala do sacrifício quando o sangue escorria. Mirabeau, que já os sonhava para o seu Jardim dos suplícios, escreveu que “naquele meio de flores e perfumes, isto não era repugnante nem terrível”.
A morte, para os astecas, não era nada. Eles pediam aos seus deuses não apenas que lhes permitissem receber a morte com alegria, mas também que os ajudassem a encontrar nela encanto e doçura. Eles queriam ver as espadas e as flechas como guloseimas. Estes guerreiros ferozes, no entanto, não passavam de homens afáveis e sociáveis como todos os outros, que gostavam de se reunir para beber e conversar. Também era comum nos banquetes astecas se embriagarem com algum dos diversos narcóticos que usavam habitualmente.
Parece que havia neste povo de valor extraordinário um gosto exasperante pela morte. Eles se entregaram aos espanhóis presos a uma espécie de loucura hipnótica. A vitória de Cortés não é um fato de força, mas de um verdadeiro feitiço. Como se o povo tivesse vagamente compreendido que, uma vez chegado a este grau de violência feliz, a única saída era, para eles como para as vítimas com as quais apaziguavam seus deuses festivos, uma morte súbita e aterrorizante.
Eles próprios quiseram servir até o fim como “espetáculo” e “teatro” a estes personagens, “servir de entretenimento”, de “diversão”. Na verdade, era assim que concebiam sua estranha agitação. Estranha e precária, porque morreram tão abruptamente quanto um inseto que é esmagado.
*Nota de tradução: este texto foi publicado originalmente com o título L’Amérique disparue, em 1928, no número 11 da revista Cahiers de la république des lettres, que foi consagrado à arte pré-colombiana. Marca o começo da vida intelectual de Georges Bataille e conversa com um tipo de surrealismo herético que surgiria nos anos de 1930 na França.
- Eduardo Galeno é formado em português pela Universidade Estadual do Piauí e pesquisa retórica, semiótica e literatura.
- Georges Bataille (1897–1962) foi um escritor e pensador francês cuja obra transita entre filosofia, literatura e antropologia. Bibliotecário de profissão, fundou revistas e sociedades secretas, como a influente “Acéphale”, explorando temas como o sagrado, o erotismo, a violência e o poder. Dentre suas obras mais conhecidas, estão “A história do olho” (1928) e “A parte maldita” (1949).




