Em julho de 2022, quando o Brasil ainda enfrentava 7 mil mortes de Covid por mês, o então presidente Jair Bolsonaro foi ao Conselho Federal de Medicina e, para justificar o uso de remédios sem eficácia comprovada contra o vírus, recorreu a uma piada:
Nós sabemos que muitas vezes, os senhores sabem mais do que eu, que muitos remédios são descobertos por acaso. Até mesmo o da impotência sexual. Foi por aí né? Quando passava alguém perto da cama de um velhinho, ali ele queria se levantar, e não era pra ir no banheiro! Aí descobriram esse remédio. Ainda bem né? Ainda bem. Hoje está mais descomplicado na hora de ter que levantar. E foi um exemplo pra todos nós, né?[1]
Bolsonaro não é o único político da extrema-direita a recorrer ao humor para defender suas posições. Javier Milei, presidente da Argentina que passou parte de sua campanha vestido de super-herói, geralmente com uma serra-elétrica nas mãos para dar o tom de corte de gastos que ele propunha, é outro extremista contemporâneo que faz das piadas um elemento central em sua retórica. A receita amarga da austeridade se associa, na persona de Milei, ao ar de chacota que sugere o sorriso como melhor reação à dor do arrocho. Enquanto o circunspecto Michel Temer ordenou aos brasileiros, em 2016, “não fale em crise, trabalhe”[2], o debochado Milei parece sugerir aos argentinos que não chorem, sorriam. Se nesses casos em que é usado para vender remédios duvidosos ao público parece uma espécie de disfarce para o gosto amargo, o humor de Milei e Bolsonaro se revela de maneira mais corrosiva quando mobilizado como forma de ridicularizar ou diminuir oponentes políticos. Num exemplo recente, atacando o cantor Gusttavo Lima, que ameaça se candidatar à presidência, Bolsonaro o comparou preconceituosamente a Lula: o sertanejo seria um “bom concorrente” ao Planalto, pois ele “já tem condenação” e “bebe muito”[3]. Entre vários episódios semelhantes de Milei, pode-se lembrar um ocorrido no ano passado, quando, para atacar um deputado da oposição, o presidente argentino postou uma foto dele com um outro político, acusado de pedofilia. Como o deputado da oposição é baixo em comparação ao acusado, tascou como legenda: “Prova gráfica de um deputado pedófilo de Misiones querendo abusar de uma criança”[4]. Esses ataques diretos, com o objetivo de agredir um adversário, se alternam com outros nos quais não se trata exatamente de diminuir oponentes, mas de reafirmar hierarquias imaginárias que permitem ao emissor da piada e a seu público gozar momentaneamente de um sentimento de superioridade em relação ao alvo do riso. Ao comentar a reforma da Previdência de seu governo, por exemplo, Bolsonaro fez a ressalva: “Se for uma reforma de japonês, ele vai embora. Lá [no Japão], tudo é miniatura”[5]. A mesma lógica estava em jogo quando, numa de suas tantas lives, fez piadas sobre obesidade e misoginia para divertir os espectadores[6]. Reclamando o direito de insistir em estereótipos vulgares, como “cearense cabeçudo” e “gaúcho supermacho”, Bolsonaro afirmou em 2019: “Perdemos o direito de fazer piada no Brasil”[7].
Tanto no caso do atual presidente argentino, quanto no do ex brasileiro, as piadas ajudam a compor uma imagem de rebeldia antissistema, em que o desafio aos limites do que é tido como aceitável no discurso público se combina com um discurso privatista, de redução do Estado. Como se desregulação, privatização, corte de gastos, sendo (teoricamente) modos de desmontar “o sistema”, fossem a contraparte programática da agressividade retórica. Quando assumiu a presidência do Mercosul, defendendo o fim de barreiras alfandegárias, Milei soltou: “tudo o que seja para romper me encanta”[8]. No dia de posse de seu ministro de Desregulação e Transformação do Estado (cujo nome já parece uma piada por si só), afirmou: “Vamos desregular o relógio”[9]. Num jantar com lideranças direitistas dos EUA e do Brasil em Washington, em 2019, Bolsonaro se valeu de uma ideia semelhante: “Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer.”[10] Também Donald Trump, em quem tanto Bolsonaro quanto Milei assumidamente se inspiram, faz do “des” um prefixo de ordem, se gabando, já no início desse seu segundo governo, de ter deflagrado “a maior campanha de desregulação da história”[11].
As piadas dos extremistas contemporâneos, como parte da construção dessa imagem “anti”, também poderiam ser definidas por via negativa, com auxílio de prefixos afins. Pois têm uma dimensão “disingenuous” (sonsa), ou quem sabe simplesmente descarada, no modo como jogam propositalmente com certa dubiedade do que é dito, de maneira que permite ao piadista dizer uma verdade (ou algo que gostaria que fosse entendido por seus apoiadores como sendo a sério) e fingir que era uma piada. Durante a campanha eleitoral que o levaria ao seu segundo mandato como presidente dos EUA, Donald Trump afirmou: “Saia e vote, só desta vez. Vocês não precisarão fazer isso mais. Mais quatro anos, e quer saber?, tudo estará resolvido, tudo estará bem, vocês não precisarão mais votar, meus lindos cristãos”[12]. Era uma promessa ou uma blague de mau gosto?
Nisso tudo, porém, o extremismo atual é menos anticonvencional do que seus expoentes gostariam de fazer crer. Embora, por conta dos afetos de ódio e medo que seu discurso mobiliza, geralmente associemos Mussolini, Hitler et caterva a uma faceta carrancuda, sempre houve uma conotação “humorada” e até mesmo ridícula nesses personagens (como Chaplin captou em cima do laço, em 1940, em O grande ditador). A intenção sempre foi óbvia: criar uma câmara de eco entre os seus seguidores. Desde Adorno e Horkheimer, sabemos que uma das características do líder fascista é ser uma mistura de King Kong, pelo seu poder de destruição, com o barbeiro da esquina, pela capacidade de identificação com a massa. Mas o humor desses tiranos só fazia sentido – e, entre os atuais déspotas, continua só fazendo sentido – entre aqueles que compartilham dos mesmos valores, valores esses que envolvem sempre a destruição da diferença. Porque o fascismo, em todos os tempos e lugares, sempre buscou eliminar o outro, aquele que não se encaixa no seu grupo de eleitos.
Pensado como um conceito e menos como um regime político histórico, o fascismo é inseparável de personagens que se acham “disruptivos” (para falar como os “techbros” do Vale do Silício). A diferença é que tais figuras fascistas não querem necessariamente romper com a sociedade em que estão inseridos, mas “voltar” para um mundo imaginado, um ideal inexistente de passado (“Make America great again” etc.), que, no fundo, é o alargamento das condições sociais atuais. Isso, seguindo as características de cada momento – com Estado aparentemente forte, nas décadas de 1930-40, com uma política francamente neoliberal, nos dias atuais. Para esse “retorno” há um paradoxo evidente: em vez de criar novidades, em vez de pensar em alargar o horizonte de atuação, dentro da lógica fascista, esses “disruptores”, inovadores, criadores, inventores, enfim, só têm a destruição como o único resultado de seu ímpeto criativo. Em uma linha: eles criam a destruição. Por isso, inclusive, as falas de Milei, Bolsonaro e Trump em direção a desfazer o que está feito, a quebrar o pronto, a ser sempre “anti” algo, se portar como o “des” alguma coisa. No processo de transformação da sociedade, em vez de melhorar as condições sociais de todos, ser ativo e propositivo, apenas inventam novas formas de acabar com o mundo.
O procedimento de destruição, no caso do fascismo, começa pelas beiradas, pelas periferias, atacando aqueles que em princípio são vistos como diferentes, para reforçar a ideia de uma maioria. Porém, o problema todo é que a noção de “diferente” (ou de estrangeiro, de inimigo, de culpado etc.) operada por esses personagens é extremamente subjetiva – assim como, por complemento, a de maioria. O núcleo daqueles que se consideram a maioria vai diminuindo a cada momento, se corroendo a cada piada, se apertando até sufocar. O alvo sobre quem merece ser corroído – primeiro pelas piadas, por fim, pelas câmaras de gás – sempre aumenta. Por isso que Deleuze e Guattari dizem que, mais que um Estado Autoritário, que ele também é, o fascismo produz um Estado Suicidário. Ou ele se aplaina, como aconteceu com o Fascismo italiano ao fim da Guerra, e vira apenas uma ditadura, ou tende a se extinguir por dentro, como ocorreu com o nazismo alemão, que se transformou numa máquina de guerra contra si mesmo. A energia de destruição, sem a criação do novo, acaba por atacar o próprio centro nervoso do processo. Tal qual uma célula cancerosa, começam a produzir o seu próprio aniquilamento, de fora para dentro, da periferia para o centro, do diferente para aquele que era considerado até a véspera um igual. Não deve ser coincidência que Hitler se matou com um tiro na cabeça em 30 de abril de 1945.
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O humorista português Ricardo Araújo Pereira defende em seu A doença, o sofrimento e a morte entram no bar (2016)que existem três fases na história da reflexão ocidental sobre o humor. Na primeira, que remontaria à Grécia Antiga, o riso é entendido como “a manifestação de um sentimento de superioridade sobre os outros”. Daí que, na Poética, Aristóteles defina a comédia como “a imitação de pessoas piores do que a média”. Em Ética a Nicômaco, prossegue Pereira, “o filósofo acrescenta uma ideia que reforça a associação do riso à agressividade. Diz ele: uma piada é um tipo de ofensa e, uma vez que a lei proíbe certos insultos, talvez devesse proibir também certas piadas” (Pereira, 2016: e-book). Na segunda fase, já na era moderna, se sugere que o humor nasce de uma incongruência, como quando diz Kant: “O riso é uma emoção que surge da súbita transformação de uma expectativa em coisa nenhuma”; ou Schopenhauer: “A causa do riso é a súbita percepção de uma incongruência entre um conceito e o objeto real”. E uma terceira fase, onde estaria Freud, em que o riso seria uma espécie de válvula de escape, de descarrego, de desopilação, de, enfim, catarse.
Se formos considerar tais definições, voltaríamos da terceira para a primeira fase, com Aristóteles, que, segundo estudiosos e historiadores (Gall, 2023), teria escrito em uma obra exotérica (isto é, dedicada ao público fora do seu liceu escolar), sobre a “katharsis cômica” – a capacidade do riso de descarregar os humores malignos. Mas fiquemos, para efeitos práticos deste ensaio, com a primeira definição, que o humor demonstraria uma superioridade do humorista sobre o outro, ou, de forma complementar, que o humor funcionaria à medida que rebaixaria o seu antagonista. Essa é, de fato, uma ideia recorrente entre os estudiosos do humor: o riso serve como uma forma de corroer o adversário. Há uma iconoclastia implícita no processo. Fazer piada “às custas” do outro é um jeito de degradar o seu inimigo, sem precisar usar de força física.
Em seu influente ensaio O chiste e sua relação com o inconsciente (1905), Freud diz que o humor é um modo de colocar para fora alguns lampejos do inconsciente, sem que isso seja visto como um problema. Dito de outra forma e interpretando a passagem a nosso favor: seria uma maneira permitida de falar “verdades” sem correr risco por isso. É o caso clássico do bobo da corte que era o único autorizado pelo rei para dizer que ele estava nu, por exemplo, sem morrer logo depois.
Por isso, o humor sempre foi usado como uma arma política, um jeito daqueles que carregam mais marcadores sociais de alijamento do poder oficial conseguirem atacar os detentores das estruturas de comando. O humor fala verdades secretas, escondidas, que todo mundo sabe, mas ninguém tem coragem de admitir em voz alta. Porém não há um compromisso com a verdade, no sentido de se ater aos fatos objetivos, concretos e frios. O foco é o ataque ao adversário aparentemente mais forte, poderoso, cheio de armas e controle. E para isso vale (quase) tudo. Por isso é importante escolher bem seu inimigo.
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É extremamente comum que figuras da extrema-direita se escondam atrás do humor ao ter uma fala interpretada como preconceituosa ou agressiva, como aparece no início deste texto. Uma busca simples na internet pelo nome de Bolsonaro e a palavra “piada” demonstra como o esquema funciona na prática. Um comentário sobre um determinado assunto, geralmente envolvendo preconceitos compartilhados pelo grupo ao qual o emissor pertence, é “mal interpretado” pelos ouvintes como uma agressão. O emissor se defende afirmando que o comentário foi apenas uma piada e que o mundo está muito sem graça, não se pode fazer mais piada sobre nada, é tudo mimimi, tudo vitimismo. Mas se pode fazer piada sobre tudo, tudo mesmo? Existiria um limite para o humor?
A crítica Camila von Holdefer escreveu em 2016, a propósito da comoção gerada pelo acidente que vitimou o time de futebol quase todo da Chapecoense: “Ainda assim, houve quem fizesse piada com a enormidade daquela dor, numa demonstração grotesca, caso alguém ainda duvidasse, de que há situações em que o humor não cabe, não pode caber, não tem como caber, não deve caber” (von Holdefer: 2016). Quando é uma catástrofe com essas proporções, o limite fica menos nebuloso. Mas onde estaria esse limite no dia a dia?
Algumas vezes, como visto, quando se usa o argumento da piada, a intenção é disfarçar o flagrante delito. A piada se torna um salvo-conduto para falar as piores atrocidades, liberando o seu emissor da responsabilidade, como se ele voltasse a ser uma criança, inimputável. “Foi apenas uma piada, não leve a sério” é a desculpa explícita invocada para afirmar implicitamente: “posso fazer o que eu quiser”.
Outras vezes, se quer dizer que a sentença não foi dita com todas as variadas intenções com que ela foi entendida, mas apenas com aquelas alegadas pelo próprio emissor. O emissor quer ter todo o controle da comunicação, de forma autoritária ou, em muitos casos, um tanto cínica. Se alguém não concordar, é – outra vez – mimimi. Quando Bolsonaro diz que “não estupraria” uma colega deputada federal porque “ela não merece”, e depois se defende dizendo que era um exagero retórico, portanto algo “não sério”, poderíamos entender que estaria também no limite, mas do lado de dentro, do aceitável? E quando ele fala que pintou um clima com garotas de 14, 15 anos? Seria uma piada, outro exagero, ou pedofilia? De novo, parece sempre uma autorização para infringir leis e normas. O humor, aliás, sempre foi iconoclasta, mas, pergunto retoricamente outra vez, vale tudo? Outro exemplo: quando Elon Musk faz um gesto que remete diretamente a um regime que praticou um dos maiores genocídios do mundo recente, é para ser entendido como um descontrole emocional de um desajeitado, como alguns colunistas de jornais insinuaram, ou como um “apito de cachorro”? Como se sabe, essa expressão, geralmente utilizada em inglês, dog whistle, designa um tipo de mensagem cifrada que permite ao seu emissor dizer algo que a princípio seria inaceitável no discurso público, se dirigindo ao grupo que detém a chave de interpretação, e ao mesmo tempo se fazer de desentendido quando questionado, fingindo não ter dito o que de fato (mas de modo cifrado) disse. Geralmente o “apito” é usado por grupos neonazistas para cumprimentar os seus pares de forma a desafiar interdições ao discurso de ódio: Filipe Martins, um ex-assessor do ex-presidente Bolsonaro, famosamente fez um gesto desses em uma reunião oficial do governo passado, por exemplo. Indiretamente, a informação passada é: esse tipo de atitude está liberado. Podemos ser nazistas, fascistas, direitistas ao extremo, o nome que quisermos dar. Se isso for considerado, é possível levar a questão: será que os “exageros” do ex-presidente não funcionariam, eles também, como um apito de cachorro? Será que quando ele faz essas piadas, outros tiozões se reconhecem e se sentem autorizados para falar e, por que não?, agir de acordo com as ordens – estuprar mulheres, praticar pedofilia, ser violento – do seu líder?
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O comportamento de se defender caçoando o interlocutor e depois recuar dizendo que era apenas humor também é comum entre aqueles que não necessariamente votaram em candidatos desse espectro político. É uma maneira conservadora de autoproteção, um escudo muito comum usado geralmente por homens-cis-brancos-héteros, o pacote completo, independentemente da coloração política stricto sensu: em vez de admitir a derrota e tentar aprender com os erros, atacar como forma de se defender. O que demonstra que, se bobearmos, mesmo que nos entendamos como vermelhos, podemos cair no meio do poço verde-e-amarelo da ultradireita.
Tal posição política, aliás, não deveria ser vista apenas como uma identidade fixa – apesar de em alguns casos ser – mas como um modo de existir, uma forma de se portar. Quando agimos dessa maneira reativa, estamos diretamente contribuindo para criar corrosão e cisão num ambiente em que se deveria prezar pela comunhão e entrelace dos desiguais. Não quer dizer que tal personagem “é” da ultradireita, mas que tal atitude, sim, faz parte das armas do lado de lá do espectro político, e colabora para lá. Por situações assim que os pensadores franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari diziam que existiam microfascismos mesmo em ambientes tradicionalmente de esquerda, como sindicatos. Porque mesmo que nas situações macro defendamos as posturas socialistas, nas pequenas questões, “a cadela do fascismo está sempre no cio”, como famosamente disse Brecht.
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Natalie Wynn é uma ex-doutoranda em Filosofia da Universidade de Northwestern que largou a academia para se transformar na youtuber ContraPoints. Em seu canal, ela rebate argumentos da direita sem recorrer a uma superioridade moral da esquerda, mas demonstrando como os pontos direitistas são incongruentes, e não no sentido humorado sugerido por Kant e Schopenhauer, mas por uma fraqueza intelectual. Em bom português: seriam piadas ruins não por serem (moralmente) “más”, mas por serem burras mesmo.
Em um vídeo de 2019, Wynn fala sobre como, ao ver o comediante inglês Ricky Gervais discorrer sobre pessoas trans, ela, que é trans, não conseguiu ver graça. Ao contrário. Gervais é famoso por se dizer indiferente ao impacto de suas tiradas sob o argumento de que o humor não deve respeitar limitação. Contudo Wynn defende que sua apresentação foi apenas desinteressante. Não por ele ter sido agressivo per se – o que seria um argumento moral: “ser agressivo é mau!” –, mas porque recorreu a platitudes, uma versão só um pouco mais sofisticada do “cearense cabeçudo” ou o “gaúcho supermacho”. Gervais teria feito um esquete cheio de imagens antigas e sem conexão com a realidade atual, teria se colocado na posição neutra, daquele que sabe a maneira correta de se portar diante da vida, e o diferente é o objeto da troça. Bullying, em uma palavra.
Para demonstrar que não é contra piadas sobre pessoas trans, Wynn comenta um vídeo da youtuber Gigi Gorgeous sobre o procedimento de doação de esperma para realizar o sonho de ser mãe: como mulher trans que não fez a transição completa, foi Gigi quem precisou doar o sêmen. O vídeo é narrado da perspectiva de Gigi, com as surpresas enfrentadas tanto na hora de ela, loura e olhos claros, interagir com os atendentes atônitos, como no momento em que precisava escolher, já dentro do quarto de colheita, um vídeo pornô. O vídeo soa como uma comédia de erros, em que os movimentos parecem a todo momento que vão dar errado, mas inexplicavelmente funcionam.
Ao comentar os vídeos, Wynn não defende um “lugar de fala”, mas acusa Gervais de ignorância e de falta de afeto. Não parece uma salvaguarda de mercado, mas a defesa, mesmo, de uma relação que envolvesse algum tipo de conexão – talvez o humorista, quando aborda um mundo que não seja o seu, deva ter uma relação com o seu objeto, não mirar sua pura destruição. Fazer um humor “com”, não “contra”?
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Para complicar ainda os fatores, a internet misturou mais os limites entre público e privado, que já não eram assim tão transparentes. Comentários corrosivos feitos para amigos, em particular, num momento de raiva, ou desabafos em contextos muito específicos, podem ser terríveis, amargos, ressentidos, vingativos, injustos, violentos, mas são particulares. Embora haja quem queira negar os nossos “instintos mais primitivos”, a verdade é que somos tudo isso e mais um pouco. Negar esses afetos é negar uma boa parcela da nossa construção psíquica. E tudo recalcado acaba por vir à tona, de maneiras inesperadas e, em geral, pouco felizes. Todos nós já fizemos piadas horríveis na intimidade que se publicadas em redes sociais seriam vistas como motivo de cancelamento – no mínimo. Todos temos uma parcela equivocada dentro de nós, a diferença apenas é que alguns não incentivamos que tais pensamentos tomem forma e se concretizem “do lado de fora”, enquanto outros não fazem qualquer tipo de filtro, ao contrário, assumindo a postura de bad boy (de araque), de iconoclastas (de boutique), de libertários (até a página 4). Se ninguém é a todo tempo santo ou demônio, se somos uma montanha russa sem cinto de segurança e com a manutenção atrasada, essa parte que pode e deve ser cancelada fica, para quem se preocupa com o coletivo, na esfera pessoal, confidencial, individual. Algumas vezes, todavia, tal situação escapole.
O tribunal da quinta-feira, livro de Michel Laub lançado em 2016, mostra como uma conversa pela internet, cheia de humor, ironia e piadas internas, entre dois amigos sobre a traição de um deles, ao ser descoberta pela mulher traída, se torna um problema público. Mas e se a conversa não for em uma relação virtualmente tête-à-tête, mas em um grupo composto de diversos indivíduos, como a história bem similar que é narrada por Vanessa Barbara em Operação impensável, lançado no ano anterior? Onde começa o público e termina o privado?
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A jornalista, escritora, roteirista, doutora em Letras e amiga minha, Mariana Filgueiras, que trabalhou muito tempo escrevendo para programas como Greg News, que trafegam pela fronteira entre o jornalismo e o humor, costuma dizer informalmente que o humor é o novo rock and roll. Seu intuito é mostrar como o jovem (um certo tipo de jovem) não mais quer mais formar uma banda, como acontecia com frequência ali pelos idos da década de 1980 e até 1990. Se nos anos 2000, esse jovem talvez tenha querido ser DJ, agora – ela defende – ele quer ser comediante. Concomitantemente, o meme se tornou uma ferramenta de comunicação tão popular que nem mesmo órgãos supostamente sérios da organização estatal, como o Banco Central, escapam de o utilizar para conseguir atingir seus objetivos. É inegável, portanto, a presença do humor na nossa cotidianidade. Esses são apenas dois exemplos, poderia continuar. Contudo, como todo modo de se portar no mundo, ele é apenas um meio.
O humor não é necessariamente de esquerda ou direita. O humor está em disputa, sempre. Sempre existirá humor, em todos os espectros políticos. E o humor corrosivo faz parte da vida, sim, e até pode penetrar nas questões mais estritamente políticas, como visto. A diferença, me parece, é se ele está querendo construir uma sociedade em que os diferentes são vistos como iguais, ou se ele quer priorizar uma postura e um comportamento de certos personagens historicamente privilegiados. Se ele mira os de cima, para aumentar o teto de ação, ou atinge os debaixo, destruindo nossos fundamentos.
- Ronaldo Pelli é Escritor, mestre e doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-9405-774X; Lattes: http://lattes.cnpq.br/2437545597681125.
Referências
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BARBARA, Vanessa. Operação impensável. Rio de Janeiro, Editora Intrínseca: 2015.
BERGSON, Henri. O riso. ensaio sobre a significação do cômico. Segunda edição. Tradução: Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro, Zahar Editores: 1983.
DESIRÉE, Pierre. “A comédia na poética de Aristóteles”. Organon, Porto Alegre, nº 49, julho-dezembro, 2010, p.69 – 94.
FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente (1905). Obras completas volume 7. Tradução de Fernando Costa Mattos e Paulo César Lima de Souza. São Paulo, Companhia das letras: 2017.
GALL, Felipe. “Fisiologia do riso segundo Aristóteles”. Boletim De Estudos Clássicos, nº 68, 2023, 11-23. https://doi.org/10.14195/2183-7260_68_1.
GORGEOUS, Gigi. “My sperm bank experience”. Gigi Gorgeous. Youtube. Publicado em 29 de dezembro de 2018 em https://www.youtube.com/watch?v=z4CXfdy-RHA. Acessado em 2025.
LAUB, Michel. O tribunal de quinta-feira. São Paulo, Companhia das Letras: 2016.
NAMBA, Janaina. “Freud e a irreverência subversiva do humor”. Revista Quatro cinco um. São Paulo. Edição #2 jun.2017. Acessado em https://quatrocincoum.com.br/resenhas/psicanalise/freud-e-a-irreverencia-subversiva-do-humor/, em 2025.
PEREIRA, Ricardo Araújo. A doença, o sofrimento e a morte entram no bar. Lisboa, Tinta da China: 2016.
VON HOLDEFER, Camila. “Para compreender o riso”. Blog IMS. Instituto Moreira Salles: Publicado em 5 de dezembro de 2016. Acessado em https://blogdoims.com.br/para-compreender-o-riso/, em 2025.
WYNN, Natalie. “Darkness”. ContraPoints. Youtube. Publicado em 2 de março de 2019 em https://www.youtube.com/watch?v=qtj7LDYaufM. Acessado em 2025.
[1] https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/a-nova-piada-de-bolsonaro-envolvendo-impotencia-sexual
[2] https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2016/05/michel-temer-faz-seu-primeiro-discurso-e-ministros-tomam-posse.html. Após essa fala, fica a dúvida: será que deveríamos pensar a seriedade “tecnocrática” afetada em pronunciamentos assim como uma variante do humor deadpan, ao estilo Buster Keaton?
[3] 6 https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/bolsonaro-ri-de-piada-sobre-gusttavo-lima-e-condenado-e-bebe-
muito/
[4] https://www.lagaceta.com.ar/nota/1049024/politica/milei-compartio-sus-redes-broma-genero-criticas-prueba-grafica-diputado-pedofilo.html
[5] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/05/piadas-de-bolsonaro-sao-alvo-de-revolta-risos-e-medo-de-bullying-entre-japoneses.shtml
[6] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/09/10/ao-lado-de-crianca-jair-bolsonaro-faz-piadas-sobre-gordo-e-misoginia.htm
[7] https://crusoe.com.br/diario/perdemos-o-direito-de-fazer-piada-no-brasil-diz-bolsonaro/
[8] https://www.losandes.com.ar/politica/la-inesperada-broma-de-milei-en-su-asuncion-en-el-mercosur-todo-lo-que-sea-para-romper-me-encanta
[9] https://www.lanacion.com.ar/politica/la-broma-de-javier-milei-durante-la-jura-de-federico-sturzenegger-le-vamos-a-desregular-el-reloj-nid05072024/
[10] https://oglobo.globo.com/mundo/antes-de-construir-preciso-desconstruir-muita-coisa-no-brasil-diz-bolsonaro-nos-eua-23530792
[11] https://www.whitehouse.gov/remarks/2025/01/remarks-by-president-trump-at-the-world-economic-forum/
[12] https://www.theguardian.com/commentisfree/article/2024/jul/31/trump-dictator-jokes