o rio cerceado
I.
onde correm as vazantes
onde o pasto não foi soltado
rebate aos pés dos gerais
o rio cerceado.
onde as bisavós
beijam os quintais,
e os bisavôs
ninam as vazantes,
retomaremos
o gesto primordial.
das Serras da Canastra
ao Oceano Atlântico,
beijaremos.
e ao retomar o beijo
tu espias
um São Francisco
que flui como facas
e nutre como bagos,
as que ficam nos sequeiros
os que fincam nas vazantes
os que ficam-fincam
no lameiro.
a pele-território
é o ponto de partida,
é o destino final.
II.
o batuque será a pulsação
que nos remará ao sonho.
nascerá o sol ancestral,
quando abrires os olhos.
III.
os pés do sol
querem batucar
crânio nosso,
levar a semente
e a terra ao divórcio.
mas tu
manejas a roça
com o encanto
de quem dela vive,
e dela cuida.
por isso,
provarás
da macaxeira,
do melão-neve.
por isso
na memória-porvir
o território
és tu,
e teu moleque.
IV.
tu manejas
e trocas pés-de-caju
tu manejas,
e trocas sabenças.
por isso,
o teu mamão
é carne-espírito.
e as cascas das umburanas
te protegem.
quando espinhos solares
incineram a areia,
tuas abóboras
não carbonizam.
com teu suor,
elas crescem.
em tuas escápulas
crioulas abóboras aladas.
V.
estás exausta –
com as mãos-costas
calejadas
mas com teus
pés-copaíbas-mudas,
fincas na terra
etnoespécies.
VI.
e tuas abóboras sorriem,
porque tem fé.
e tu sorris –
com o feijão-de-arranca,
e por tua comadre
também.
VII.
os jatobás
crescem como pupilas
que sabem quem
compõe uruçus-amarelas
que os levam a
quiméricas florações
VIII.
aqui nesta terra,
há um jequitibá
que resiste ao fogo
e chora
ao ver seus filhos
encurralados.
IX.
aqui nesta terra
o Velho Chico
quer quebrar as cercas.
cantar o batuque,
entrar na roda
pelas janelas
ser-gente.
fazer emergir
o milho crioulo
após enchentes.
e com a prece,
encantar vazantes.
X.
aqui nesta terra,
a semente crioula
quer se libertar do latifúndio
no semiárido.
e resiste às bananas-soja-exportadas,
ao parque florestal trancado,
ao glifosato-tomate-transmutado,
à várzea despedaçada.
declara resistência
ao fogo-eucalipto-fazenda,
para cuidar do corpo cerratense.
pois o inverso de conflito
é cuidado.
XI.
e com seu afago
nascem buritizeiros,
sanguíneos,
imortalizados.
porque com amor
pelas trigonas,
foram beijados.
XII.
ao darem frutos,
são abraço
aos que os manejaram,
como se põe no colo
filhotes de gente.
XIII.
somos pálpebras
dos olhos d’água
sanfranciscanos.
XIV.
eu&tu
viemos do baru.
XV.
em nossa margem
crescem civilizações,
brincam as acerolas.
e as nossas canoas
são polinizadas por Xangô.
XVI.
eu&tu,
o barro do rio.
uma janela ainda é uma janela mesmo sem a presença das namoradeiras
enquanto as cadeiras de plástico
verde-colonial
pescam uma história
com cuidado recolhe as mangas
do afroquintal
matutas bem o som
da queda
do fruto
da aroeira
se lembra que os dias
são endocarpo
de comer na beira do rio
atirando na água as sementes
como quem se atenta ao carvão
ensinando o contorno do tempo
aos pés
palco banguela
todos os estrangeiros
em sua cidade natal
no Norte de Minas
carregam o sotaque híbrido
de sua bisavó
desconhecida
mas foi ela quem lhe devolveu
um nariz de mitocôndrias
e um território
para chamar de seu
quando estiver procurando
o amarelo céu de giz
no chão cinzento de BH
lembre-se do porvir
inaugurando ranhuras
em sua patela esquerda
sinuosa como a rua de ladrilhos
que viu seu fêmur
tornar-te menina
no ritmo das ribanceiras
belorizontinas
como guia turística
te dou uma rua de presente
para que ela tenha
o mesmo som de seu nome
basta permanecer na encruzilhada
como uma criança sentada no escuro
de olhos bem abertos
esperando o sinal abrir
esperando o medo passar
- Maria Emanuelle Cardoso nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, Brasil, em 15 de novembro de 2000. É bióloga e mestranda em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais na UNIMONTES. Pesquisa em Etnoecologia e atua como educadora popular e ativista socioambiental. Seu livro de estreia, “amarelo mostarda”, foi publicado em 2024 pela Editora Nauta. Tem textos publicados em mais de 50 antologias em português, inglês e espanhol. Foi selecionada para o Clipe 2023 da Casa das Rosas, recebeu o 2° lugar do Prêmio Poesia Agora Verão 2021 da Editora Trevo e foi semifinalista do Prêmio Loba. Seu segundo livro, “foram os peixes a inaugurar a linguagem”, está no prelo.




