REVISTA ESTUÁRIO

Um experimento editorial criado e realizado por alunxs e professorxs da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Delta do Amazonas. Foto: ESA

O rio cerceado & outros poemas – Maria Emanuelle Cardoso

o rio cerceado

I.

onde correm as vazantes

onde o pasto não foi soltado

rebate aos pés dos gerais

o rio cerceado.

onde as bisavós

beijam os quintais,

e os bisavôs

ninam as vazantes,

retomaremos

o gesto primordial.

das Serras da Canastra

ao Oceano Atlântico,

beijaremos.

e ao retomar o beijo

tu espias

um São Francisco

que flui como facas

e nutre como bagos,

as que ficam nos sequeiros

os que fincam nas vazantes

os que ficam-fincam

no lameiro.

a pele-território

é o ponto de partida,

é o destino final.

II.

o batuque será a pulsação

que nos remará ao sonho.

nascerá o sol ancestral,

quando abrires os olhos.

III.

os pés do sol

querem batucar

crânio nosso,

levar a semente

e a terra ao divórcio.

mas tu

manejas a roça

com o encanto

de quem dela vive,

e dela cuida.

por isso,

provarás

da macaxeira,

do melão-neve.

por isso

na memória-porvir

o território

és tu,

e teu moleque.

IV.

tu manejas

e trocas pés-de-caju

tu manejas,

e trocas sabenças.

por isso,

o teu mamão

é carne-espírito.

e as cascas das umburanas

te protegem.

quando espinhos solares

incineram a areia,

tuas abóboras

não carbonizam.

com teu suor,

elas crescem.

em tuas escápulas

crioulas abóboras aladas.

V.

estás exausta –

com as mãos-costas

calejadas

mas com teus

pés-copaíbas-mudas,

fincas na terra

etnoespécies.

VI.

e tuas abóboras sorriem,

porque tem fé.

e tu sorris –

com o feijão-de-arranca,

e por tua comadre

também.

VII.

os jatobás

crescem como pupilas

que sabem quem

compõe uruçus-amarelas

que os levam a

quiméricas florações

VIII.

aqui nesta terra,

há um jequitibá

que resiste ao fogo

e chora

ao ver seus filhos

encurralados.

IX.

aqui nesta terra

o Velho Chico

quer quebrar as cercas.

cantar o batuque,

entrar na roda

pelas janelas

ser-gente.

fazer emergir

o milho crioulo

após enchentes.

e com a prece,

encantar vazantes.

X.

aqui nesta terra,

a semente crioula

quer se libertar do latifúndio

no semiárido.

e resiste às bananas-soja-exportadas,

ao parque florestal trancado,

ao glifosato-tomate-transmutado,

à várzea despedaçada.

declara resistência

ao fogo-eucalipto-fazenda,

para cuidar do corpo cerratense.

pois o inverso de conflito

é cuidado.

XI.

e com seu afago

nascem buritizeiros,

sanguíneos,

imortalizados.

porque com amor

pelas trigonas,

foram beijados.

XII.

ao darem frutos,

são abraço

aos que os manejaram,

como se põe no colo

filhotes de gente.

XIII.

somos pálpebras

dos olhos d’água

sanfranciscanos.

XIV.

eu&tu

viemos do baru.

XV.

em nossa margem

crescem civilizações,

brincam as acerolas.

e as nossas canoas

são polinizadas por Xangô.

XVI.

eu&tu,

o barro do rio.


uma janela ainda é uma janela mesmo sem a presença das namoradeiras

enquanto as cadeiras de plástico

verde-colonial

pescam uma história

com cuidado recolhe as mangas

do afroquintal

matutas bem o som

da queda

do fruto

da aroeira

se lembra que os dias

são endocarpo

de comer na beira do rio

atirando na água as sementes

como quem se atenta ao carvão

ensinando o contorno do tempo

aos pés


palco banguela

todos os estrangeiros

em sua cidade natal

no Norte de Minas

carregam o sotaque híbrido

de sua bisavó

desconhecida

mas foi ela quem lhe devolveu

um nariz de mitocôndrias

e um território

para chamar de seu

quando estiver procurando

o amarelo céu de giz

no chão cinzento de BH

lembre-se do porvir

inaugurando ranhuras

em sua patela esquerda

sinuosa como a rua de ladrilhos

que viu seu fêmur

tornar-te menina

no ritmo das ribanceiras

belorizontinas

como guia turística

te dou uma rua de presente

para que ela tenha

o mesmo som de seu nome

basta permanecer na encruzilhada

como uma criança sentada no escuro

de olhos bem abertos

esperando o sinal abrir

esperando o medo passar

  • Maria Emanuelle Cardoso nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, Brasil, em 15 de novembro de 2000. É bióloga e mestranda em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais na UNIMONTES. Pesquisa em Etnoecologia e atua como educadora popular e ativista socioambiental. Seu livro de estreia, “amarelo mostarda”, foi publicado em 2024 pela Editora Nauta. Tem textos publicados em mais de 50 antologias em português, inglês e espanhol. Foi selecionada para o Clipe 2023 da Casa das Rosas, recebeu o 2° lugar do Prêmio Poesia Agora Verão 2021 da Editora Trevo e foi semifinalista do Prêmio Loba. Seu segundo livro, “foram os peixes a inaugurar a linguagem”, está no prelo.